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CABIDE MENTAL Um dia

25/03/2013 por René Zamlutti Jr.

Caminhava um dia pela grande avenida empresarial da cidade, o passo apertado, pensando na importante reunião que se avizinhava. Não percebeu o senhor de chapéu e óculos que vinha em sua direção, também ele apressado e perdido em seus próprios pensamentos.

     Chocaram-se. As duas pastas voaram, papeis espalharam-se pela calçada e foram pisoteados pelos demais passantes. Ele abaixou-se, furioso, tentando recolher os documentos que fugiam ao vento.
     Ergueu-se pronto para a guerra. Os óculos do senhor com quem trombara estavam partidos, o chapéu fora levado pelo vento inclemente. O senhor também se levantava, nervoso, disposto ao combate.
     Lembrando mais tarde, ele não saberia dizer se fora a perda do chapéu ou a sofrida tentativa do adversário de enxergar por trás das lentes partidas. Qual fora o gatilho? Ele jamais descobriria. O fato é que, diante do senhor que queria enfrentá-lo, o chapéu perdido para sempre e as lentes dos óculos, antes suas amigas, agora mais uma barreira, alguma coisa acontecera em seu espírito. Sem entender bem por que o fazia, perplexo e impotente ante a própria atitude, viu-se aproximar-se do irritado senhor e dar-lhe um forte abraço.
     O senhor deu dois passos para trás, tão espantado quanto ele próprio. Tentou dizer algo, mas a boca, trêmula, não encontrou as palavras certas. Após alguns instantes de emudecido espanto, afastou-se, seguindo seu caminho, olhando assustado para trás, como se esperasse ser atacado à traição.
     Tentou esquecer o incidente, que o perturbava por ser tão irracional, mas dias depois, ao encontrar o vizinho encrenqueiro, com quem sempre se desentendera, encerrou uma discussão que se iniciava com outro daqueles abraços incompreensíveis. O vizinho o empurrou com força, gritando "sai pra lá!", mas foi embora e não continuou a discussão.
     Dali em diante responder com abraços a qualquer forma de agressão ou violência tornou-se uma compulsão irrefreável, que ele não compreendia mas era incapaz de controlar ou evitar. Reuniões de condomínio, desentendimentos com colegas de trabalho, mesmo discussões familiares eram encerradas com um abraço resoluto.
     A família estranhou. Os filhos achavam que o pai tinha enlouquecido. A esposa, após inúmeras tentativas de entender aquele estranho comportamento (e como poderia, se ele mesmo não o compreendia?), resolveu abandoná-lo. Não era possível conversar com ele, ela disse pouco antes de partir com os filhos.
     Ele, no entanto, não conseguia mudar aquela reação, que, no fundo, apesar de todos os problemas, não o desagradava. Quantas brigas e discussões inúteis ele evitara, ainda que o método fosse desconcertante?
     Com o tempo, ganhou alguma fama. Crianças corriam atrás dele, provocando-o para ver sua reação. Precavido, ele conseguia evitar abraços efusivos em crianças, limitando-se a acariciar-lhe as cabeças - ele aprendera que muitos pais viam em seus atos uma malícia que não existia, e um pai chegara mesmo a lhe dar um soco, a que ele respondera com um abraço algo atordoado. Era também cauteloso e comedido com mulheres, principalmente as acompanhadas. Mas era-lhe impossível evitar o contato físico, mesmo que superficial - era o contato que dava sentido ao gesto e tornava as palavras desnecessárias, e ele não saberia como usá-las naquelas situações tão singulares.
     Não era incomum que jovens o provocassem, questionando sua sexualidade. Mas isso não o incomodava. Era só uma outra forma de agressão, a que ele respondia do mesmo modo, sempre que possível.
     Um jornal até mesmo o entrevistou. Mas ele não sabia o porquê daqueles abraços. "Não sei a razão disso tudo", ele dizia. "Mas, embora se fale tanto em aquecimento global, o mundo parece mais frio a cada dia". Não era uma explicação - não havia explicação - mas ele se indagava se aquela reação inusitada (que nunca deixava de espantá-lo, como se ele assistisse a tudo de longe) não seria uma rebelião de algo dentro de si contra a crescente frieza do mundo. Fosse o que fosse, parecia significar algo. Para si e para algumas raras pessoas que, de vez em quando, o olhavam de um modo que ele não compreendia bem.
     Um dia ocorreu o inevitável. Na mesma avenida onde tudo tivera início, ele sofreu um assalto. E, diante do garoto assustado que lhe brandia um canivete, adiantou-se para abraçá-lo.
     O abraço foi interrompido quando a lâmina rompeu seu peito. Ele não sentiu dor, antes um calor desagradável, úmido, e uma tontura que o fez desabar.
     Algumas pessoas correram para ajudá-lo. O sangue jorrava aos borbotões. A consciência ia se dissipando.
     Caído no chão, viu por entre as pernas das pessoas a colisão na rua, resultado talvez da confusão que o assalto causara. Enquanto tudo escurecia, pôde ver os dois motoristas descerem de seus carros, iniciarem uma nervosa discussão e, após um momento de desconfortável hesitação, se abraçarem.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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