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MEDIDA DE SEGURANÇA Todo mundo merece uma Segunda Chance ? Parte II

01/02/2013 por Antonio José Eça

Continuando a falar sobre os tais ‘predadores sociais’, (alguns nomes ficam bonitos, não?), e continuando a descrever suas características, também, exibem um egocentrismo patológico, possuindo emoções apenas superficiais e um pobre controle da impulsividade, incluindo nisto uma baixa tolerância à frustração e um limiar baixo para descarga de agressividade; também não primam pela responsabilidade e falta-lhes empatia para com outros seres, humanos ou não; digo ‘ou não’, porque uma característica frequente em psicopatas é o cometimento de crueldades com animais.

Que não se pense (e este é um grande problema que os psiquiatras tem, qual seja o de fazer as pessoas comuns entenderem tais fatos), que a maioria das pessoas com distúrbios da personalidade, de qualquer forma que o seja, é claramente criminosa; não é o que ocorre, pois muitos destes indivíduos são as vezes capazes de se controlar dentro dos limites da tolerabilidade social, apresentando entretanto um cinismo acentuado, mostrando-se manipuladores e incapazes de manter uma relação afetiva estável e de simplesmente amar. Nem a propósito, estudo epidemiológico chegou a registrar que somente 47% daqueles que eram caracterizados como tendo distúrbios da personalidade acabavam por apresentar histórias de processos criminais significativos.

O que mais ocorre, é que quando se trata de conseguir seu intento, mentem sem qualquer vergonha, além de poder cometer todo tipo de desatinos: roubam, abusam, trapaceiam, negligenciam suas famílias e parentes e até colocam em risco suas vidas e a de outras pessoas, com total ausência de remorso, de ansiedade ou de sentimento de culpa em relação ao seu comportamento anti-social.

Além disto e o que piora mais ainda as coisas, é que são incapazes de aprender com a punição e de modificar seus comportamentos. Para eles, é mais fácil esconder sua real maneira de ser do que suprimir tal atitude, tentando disfarçar da forma mais inteligente possível suas características de personalidade; é por esta razão que se observa que indivíduos psicopatas exibem frequentemente um charme superficial para com as outras pessoas, chegando mesmo a apresentar comportamentos muito tranquilos no relacionamento social normal apresentando uma considerável presença social e boa fluência verbal, chegando mesmo em alguns casos, a serem os líderes sociais de seus grupos; Há o caso famoso de um médico, cirurgião plástico, agora preso, que se enquadra adequadamente neste fato.

Deve-se ressaltar que quando chegam a alcançar posições de poder, podem até causar mais danos do que como indivíduos e isto frequentemente ocorre em determinadas situações, tais como guerras, penúria econômica, grave pobreza e até surtos epidêmicos; nestas situações, os psicopatas podem adquirir o status de líderes regionais ou nacionais e até de aparentes sábios, tais como ocorreu com Adolf Hitler e Stalin, líderes autoritários no passado e mais recentemente, com os tristemente famosos políticos corruptos e cínicos que ‘nunca sabem’, com seu cinismo, ‘o que está ocorrendo’...

É muito difícil que, mesmo em se mantendo um contato duradouro com um psicopata, um indivíduo não preparado para isto seja capaz de imaginar o que se convencionou chamar de “seu lado negro”, já que muitas vezes o psicopata o esconde, até com relativo sucesso durante grande parte de sua vida levando para isto uma “existência dupla”

A propósito disto, é muito comum que vítimas fatais de psicopatas violentos percebam seu verdadeiro lado ruim apenas alguns momentos antes de sua morte, tal como ocorreu com algumas das vítimas do tal criminoso que agia no parque do estado; já se fez até filme sobre o assunto (há um muito interessante chamado ‘Dormindo com o Inimigo’- com Julia Roberts), que reporta o quanto muitos companheiros casados (não só maridos, esposas também ), somente se revelam com a convivência, ocorrendo de o outro cônjuge falar (nos consultórios psicoterápicos ou escritórios jurídicos) “que depois de casado(a), é que ele(a) se revelou”.

Quase fica desnecessário dizer que, em se tratando, como falamos, de ‘alterações intrínsecas da personalidade’, ou ainda de ‘variação anormal da personalidade’, deve ser considerado, (e isto é muito sério), que tais alterações não se modificam, e em poucas palavras, não curam, são alterações permanentes...; quem se lembra do provérbio que fala que

‘pau que nasce torto, morre torto’?    

Pois é, é disto que estamos falando e quando falamos isto, alguns operadores do Direito quase que brigam, dizendo algo como: ‘puxa vida, e vocês não fazem nada para mudar isto’? Claro, em alterações mentais (não palpáveis), já dissemos, todo mundo gosta de dar um palpite; é fácil dizer que os profissionais de saúde mental são incompetentes para lidar com isto!

Porque os mesmos críticos não reclamam do médico clinico frente à uma hipertensão? Ou com o endocrinologista frente a diabetes? Elas também são alterações não palpáveis, permanentes e incuráveis que também vão solapando o bem estar, no mínimo do indivíduo e de sua família; a diferença é a psicopatia vai correr o risco de solapar o bem estar de TODAS famílias.

Então ficamos com o que frente a alteração de personalidade, aí o profissional TEM que fazer alguma coisa; é um caso para se pensar....

E aí, na nossa conhecida e institucionalizada política do ‘que que tem?’, voltamos a tal ‘segunda chance’.

É preciso que se esclareçam alguns pontos que não acabam sendo de conhecimento de todos que se propõe a pensar na eventual liberação do criminoso: por exemplo, um destes criminosos, o tal que agia no parque próximo ao Zoológico, não tinha relações com as moças que levava para o lugar ermo, pelo menos enquanto a mesma estivesse viva; mordia-a, arrancava pedaços da pele, matava-a e a deixava em posição que permitiria que voltasse no dia seguinte para ter relação sexual com a morta!  Se não conseguisse, por algum motivo, como ocorreu com ao menos uma delas, ateava fogo em seu corpo, para puni-la pela segunda vez...(uma matando-a por ter ido com ele ao parque e outra por não ter sido possível ter com ela a relação sexual que pretendia...)

Em classe, brinco com os alunos, repetindo um bordão que foi comum em um programa televisivo, onde o indivíduo perguntava depois de algum acontecimento estranho: isto é normal??, com todo um ênfase especial no ‘normal’ da frase.

E também, pensando na tal ‘segunda chance’, pergunto: algum dos defensores da ‘segunda chance’, agora sabendo da incurabilidade de seu mal e da envergadura de seus crimes, levaria um indivíduo destes para casa, para ser, por exemplo, o motorista de suas filhas pequenas?

Pensem nisto.

Comentários

  • Lilian Maria Nakhle
    03/04/2013 12:15:26

    Excelente artigo. Parabéns ao Dr. Antonio Eça que mais uma vez retratou com propriedade as caracteristicas deste perigoso disturbio de personalidade que é a psicopatia! Além de ajudar a alertar com exemplos o comportamento dos mesmos. Abs, Lilian Nakhle

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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