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CONCURSOS Qual o papel do estudo em grupo na preparação para concursos públicos?

04/05/2010 por Rogerio Neiva

 

O estudo em grupo consiste numa atitude eficiente na preparação para concursos? Alguns candidatos incorporam a referida atividade aos seus estudos, avaliando ou não a sua eficiência. Outros candidatos rejeitam tal possibilidade, seja por ignorá-la, seja por contar com a convicção e a avaliação de que não se trata de uma estratégia adequada.

 

Dentre os estudiosos da aprendizagem, muitos já  se debruçaram sobre a análise desta modalidade de estudo. Segundo o francês Michael Coéffé, especialista em métodos de estudo, "o estudo em grupo pode ser útil quando bem planejado; em nenhum caso deve ser improvisado".

 

Fazendo uma leitura das descrições e trajetórias de diversos candidatos que lograram êxito na aprovação em concursos, inclusive alunos que tive a oportunidade de acompanhar, constata-se nitidamente que alguns reconhecem a eficiência da referida atividade, defendendo a sua adoção de maneira convicta, outros entendem como não recomendável, havendo ainda aqueles que ignoram a possibilidade de adoção da referida modalidade de estudos.

 

Dentre aqueles que defendem o estudo em grupo, destacam-se os seguintes fundamentos: (1) permite o compartilhamento de informações, em relação às quais seria demandado um tempo e esforço maior para que se tivesse o contato; (2) implica no compromisso de estudo perante terceiros, de forma periódica e com caráter de obrigação; (3) imposição da atividade de elaboração de textos, o que pode colaborar com a realização de questões dissertativas.

 

Já quanto aos que rejeitam a importância do estudo em grupo, destaca-se a seguinte fundamentação: (1) possibilidade de contato com informações equivocadas; (2) risco de que alguns membros do grupo não colaborem, por descumprir o ajuste estabelecido, e ainda assim se beneficiem da atividade dos demais; (3) exposição ao contato com pessoas que podem estar tomadas por sentimentos de inveja e não estejam torcendo pelo êxito dos demais.

 

Tais posicionamentos e ponderações, que guardam coerência e sentido em seus fundamentos, inegavelmente, foram construídas e constatadas a partir da experiência de cada candidato. E no caso, estamos falando de candidatos que lograram êxito na aprovação no concurso público! Mas o fato é que se trata de colocações estabelecidas a partir de um elemento puramente empírico.

 

Procurando realizar uma análise mais consistente e fundamentada, por meio da adoção das construções e conceitos da psicopedagogia, uma primeira idéia relevante que poderia ser considerada para a análise da eficiência do estudo em grupo consiste na tese das etapas da aprendizagem, propostas pelo psicopedagogo português Vitor da Fonseca. Segundo este, a aprendizagem se desenvolve em quatro etapas, envolvendo o input (contato com a informação), a cognição (compreensão da informação), o output (a exteriorização da informação) e a retroalimentação (a reiteração do contato com a informação). Dessa forma, analisando o estudo em grupo a partir da referida idéia, podemos considerar que se trata de uma oportunidade e mecanismo de output, por parte daquele que faz a apresentação do tema que está sob sua responsabilidade, bem como de retroalimentação, pois também subsiste a reiteração do contato com o conhecimento objeto do estudo.

 

Outra idéia importante consiste na noção da aprendizagem segundo o festejado Jean Piaget. Para o referido autor, um dos pais da psicopedagogia, a aprendizagem envolve a atividade de assimilação, na qual se faz uma checagem entre o conhecimento novo e o pré-existente e a acomodação, na qual se faz a adaptação ente o novo e o pré-existente, fazendo, a partir desta segunda etapa, com que se alcance um estado de equilíbrio, consolidando a aprendizagem.

 

Assim, no estudo em grupo, aquele que já alcançou a etapa da apropriação da informação nova, ou seja, já teria atingido a etapa da equilibração, pode facilitar o processo de assimilação e acomodação para os demais colegas do grupo, principalmente diante da possível identidade de condições e experiências entre ambos. Trata-se da lógica que está por trás daquela situação na qual quando um colega de sala que consegue entender um determinado assunto que os demais colegas ainda não compreenderam, conta com melhores condições do que o professor para fazer os demais entenderem.

 

Neste sentido, adotando o referido conceito, também chegamos à conclusão da importância e do potencial de eficiência do estudo em grupo.

 

Como candidato, nas diversas fases que vivenciei, até ser aprovado no concurso da Magistratura, tive algumas experiências de estudo em grupo, tanto para provas dissertativas, quanto para provas de sentença. Apesar de considerar que foi proveitosa e eficiente a referida atividade, não posso negar que era comum a falta de otimização do tempo nos encontros presenciais, principalmente em função da tentação das conversas desvinculadas daquelas que deveria ser a pauta das reuniões, o seja, o objeto de conhecimento a ser estudado.

 

Portanto, não podemos ignorar, inclusive na linha das ponderações de alguns candidatos de êxito, que é preciso tomar certos cuidados. Inegavelmente, os possíveis aspectos negativos podem comprometer todas as vantagens inerentes à referida atividade. Mas o fato é que tais vantagens existem, principalmente no plano da aprendizagem, e sustentadas por fundamentos científicos e psicopedagógicos.

 

Dessa maneira, de modo a neutralizar os fatores que podem comprometer a eficiência do estudo em grupo, alguns cuidados são fundamentais:

 

1 - é preciso que seja estabelecida a dinâmica a ser adotada, bem como algumas regras a serem seguidas, inclusive sanções e normas de tolerância para o caso de descumprimento, de modo a assegurar responsabilidade e compromisso no funcionamento do grupo;

 

2 - é preciso contar com garantias mínimas de que os membros do grupo estão com o mesmo compromisso emocional em relação à meta de aprovação, sendo dotados de vínculos de solidariedade, de modo que cada membro do grupo torça pelo sucesso dos demais, ainda que, efetivamente, subsistam dificuldades em termos de mecanismos objetivos de verificação destas condições;

 

3 - caso seja ajustada a realização de encontros, virtuais ou presenciais, é importante contar com regras de funcionamento e meios de controle, principalmente para se evitar a ação dos dispersores de tempo, tais como conversas desvinculadas da pauta estabelecida para o estudo em grupo, pois é natural a tentação de abordagem de assuntos fora do âmbito do conhecimento a ser estudado.

 

4- por fim, lembrando as palavras de Michel Coéffé, é importante que tudo seja muito bem planejamento e organizado, ou seja, a divisão dos temas, matérias e tarefas, bem como a pauta e duração das reuniões, prazos e obrigações.

 

Considerando os referidos cuidados, quanto ao segundo, não posso deixar de registrar que não se trata apenas de uma questão de compartilhar conhecimento e buscar eficiência no processo de apropriação da informação. Trata-se de compartilhar dificuldades e angústias, bem como alegrias e realizações.

 

Na conformidade com todas as ponderações apresentadas, o fundamental é que o estudo em grupo pode se traduzir numa poderosa ferramenta no processo de preparação para o concurso público. Basta ter o cuidado de fazer com que a dinâmica e o funcionamento do grupo ocorram de forma adequada. Ou seja, temos aí mais uma confirmação da importância de planejamento, monitoramento e controle no processo de busca da aprovação. Temos aí mais uma manifestação da adoção da postura do candidato de alto rendimento.

 

Bons estudos, em grupo ou de forma individualizada, e sucesso na busca da aprovação!!!

 

 

Rogerio Neiva

Juiz do Trabalho no DF. Professor e

 Autor do livro "Concursos Públicos e Exames Oficiais: Preparação Estratégica, Eficiente e Racional" (Editora Atlas), criador do sistema Tuctor (www.tuctor.com.br)

rogerio@tuctor.com.br 

 

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Juiz do Trabalho no DF. Professor e Autor do livro "Concursos Públicos e Exames Oficiais: Preparação Estratégica, Eficiente e Racional" (Editora Atlas), criador do sistema Tuctor (www.tuctor.com.br) rogerio@tuctor.com.br 

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