Página Inicial   >   Artigos

CABIDE MENTAL Problema familiar

08/04/2013 por René Zamlutti Jr.

Quando o Olavinho chegou em casa, o pai, Feliciano, assistia a um jogo de futebol na televisão. O garoto aproximou-se, meio constrangido.

     - Pai, preciso conversar com o senhor.
     Era semifinal, mas o tom de voz do Olavinho indicava que o assunto era sério. Ele desligou a televisão.
     - Fala, Olavinho.
     - Preciso contar um coisa pro senhor.
     - Então conta.
     - Eu estou saindo com uma... pessoa.
     - Poxa, filho, que legal! - Feliciano respirou aliviado. O Olavinho tinha 16 anos e nunca tinha namorado ninguém. Ele já estava ficando preocupado.
     - É... uma garota.
     O queixo de Feliciano caiu. 
     - Como é que é?
     - É, pai, uma garota. Achei melhor contar logo. Já tem um tempo, eu descobri que gosto de... meninas.
     Feliciano ficou mudo, em choque. Procurava a palavra certa, mas sentia-se perdido. Uma menina, Deus do céu! E o Olavinho falava assim, com a maior naturalidade, "gosto de meninas"...
     - Jair! Jair, vem cá!
     Jair veio do quarto, onde estava lendo um livro. Ele não gostava de futebol.
     - O que é?
     - É o Olavinho...
     Jair olhou para o Olavinho, que apertava as mãos, cabisbaixo e calado.
     - O que tem o Olavinho?
     - Conta pra ele, Olavinho, conta!
     - Contar o quê?
     O Olavinho contou. Jair, que estava em pé, deixou-se cair no sofá, meio aparvalhado.
     - Mas... você tem certeza, Olavinho? Será que... sei lá, não é só essa menina... será que não é uma fase?
     Não era, o Olavinho respondeu com uma certeza que fulminou qualquer esperança do Feliciano e do Jair. Ele bem que tentou evitar, tentou se interessar por outros garotos, mas não tinha jeito. Ele gostava mesmo de mulher.
     - É... alguém que a gente conhece?
     - Bommmm... é, vocês conhecem...
     - E quem é? - Jair perguntou, o coração batendo forte. Ele já beirava os cinquenta, fumava, era sedentário, agora o Olavinho com essa história de gostar de mulher...
     - A Joelma.
     - Que Joelma? A filha do zelador?
     - Ela mesma.
     Feliciano deu um pulo.
     - Pelamordedeus! A Joelma?!? Mas ela é... ela é...
     - Ela é o quê? - pela primeira vez o Olavinho levantou a cabeça e o encarou, não mais constrangido, agora quase furioso.
     - Eeerrr... ela é filha do zelador, Olavinho! Onde você está com a cabeça?
    "Meu Deus", Feliciano pensou abismado. Por um segundo quase deixara escapar: "Mas ela é branca!"
     Por sorte conseguiu se conter. Mas... uma menina? Ainda por cima branca
     - Vai para o seu quarto, Olavinho, eu e o Jair precisamos conversar. Você está de castigo!
     - Castigo? Por quê? Não fiz nada!
     - Agora, Olavo!
     Resignado, Olavinho foi para o quarto. O pai só o chamava de "Olavo" quando estava possesso.
     Feliciano e Jair conversaram até de madrugada. Choraram um pouco. Onde tinham errado? Tinham dado a melhor educação, a família era estruturada, iam à igreja juntos todo domingo. O que os amigos do Olavinho iam dizer? Será que já sabiam? O que os amigos deles iam dizer?
     - Branca, ainda por cima... - suspirou Jair.
     Na manhã seguinte, chamaram o Olavinho para uma conversa séria.
     Eles amavam o Olavinho, disseram-lhe. Ficariam ao seu lado, dariam-lhe apoio. Sabiam - e era bom que o Olavinho soubesse - que a vida não seria fácil. A sociedade ainda era muito preconceituosa. Um dia, talvez... mas não hoje. Ele precisava se preservar. Não precisava sair contando para todo mundo que gostava de mulher (haviam concordado na noite anterior em evitar qualquer menção à cor da Joelma - no fundo tinham a esperança de que, no futuro, ele pelo menos se interessasse por outra menina), não precisava virar um militante. A adolescência já é difícil sem esse tipo de problema.
     - O importante, Olavinho, é que somos seus pais, te amamos e ficaremos do seu lado. Não é o que queríamos para você, mas se as coisas são assim... paciência.
     Olavinho ponderou que poderia ter sido pior. Alguns amigos tinham sido espancados pelos pais ou expulsos de casa quando confessaram gostar de meninas. É, a vida não seria fácil. Mas ele havia nascido daquele jeito, não tinha feito nada de errado e não tinha do que se envergonhar. E realmente estava alucinado pela Joelma. Agora precisava torcer para que a reação dos pais dela também fosse tranquila. O Jean era gente boa e o tratava bem, mas o Arnaldo era uma fera e sempre o olhara de um jeito meio desconfiado.
     Pegou o telefone, ansioso para falar com a namorada e sonhando com um mundo mais tolerante.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br