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CABIDE MENTAL O abismo também olha

17/04/2014 por René Zamlutti Jr.

 

Alguns disseram que Alailton tentou roubar uma moto. Outros disseram que ele tentou estuprar uma mulher. Outros, ainda, disseram que ele tentou abusar de uma criança. Na verdade, ninguém sabe exatamente o que Alailton fez ou tentou fazer.


     Mas atualmente não é necessário que haja uma acusação específica. Basta que alguém seja eleito o alvo da fúria "justiceira" da sociedade, para que uma multidão - real ou virtual - atribua a si o direito de "fazer justiça" - o que quer que isso signifique.


     Alailton, adolescente negro de 17 anos, com problemas mentais, foi brutalmente linchado por uma turba furiosa, na cidade de Serra, no Espírito Santo. Levado ao hospital, não resistiu aos ferimentos e morreu.
     Destaco o seguinte trecho da matéria publicada a respeito do fato no site Pragmatismo Político:

     "Aos gritos de 'mata logo' e de vários xingamentos, o espancamento aconteceu às margens da BR 101, na tarde do último domingo (6), no bairro de Vista da Serra II, cidade da Serra, a cerca de 30 km da capital Vitória, no Espírito Santo. Só depois de duas horas de muita violência, a Polícia Militar chegou ao local, colocou o jovem na viatura e o levou até a Unidade de Pronto Atendimento. 'Os policiais militares descreveram no boletim de ocorrência que foi necessário utilizar spray de pimenta para conter os populares', disse o delegado-chefe do DPJ, Ludogério Ralff."



     Segundo reportagem da Gazeta Online, um morador do local, Ueder Santos, afirmou: "ninguém viu esse tal estupro ou mesmo quem é a suposta vítima. O menino até disse que era 'noiado', e ele nem reagia."
     A barbárie praticada contra Alailton, tenha ele ou não cometido qualquer crime, é sintomática da sede de vingança - recuso-me a usar a palavra "justiça" em circunstâncias tão vis - da sociedade contra o aumento da criminalidade. Uma vingança algo esquizofrênica, que emula o ato que pretende punir, num retorno pavoroso à Lei de Talião.


     Que parcela significativa da sociedade aplauda essa selvageria, sem se dar conta de que, ao fazê-lo, se transforma naquilo que condena, é preocupante. Mais desconcertante do que ver "gente de bem" (essa peculiar fauna que assim se autointitula) defendendo e apoiando atos dessa natureza, é ver que essa mesma "gente de bem" não tem consciência do quanto se aproxima, em termos essenciais, da... chamemos de "gente do mal" (que deve ser linchada, esquartejada e retalhada em público), ao apoiar e defender esse tipo de reação.


     Quem aplaude a selvageria das ruas também aplaude a selvageria do interior dos presídios. Se o bandido não foi literalmente para o inferno, a cadeia deve servir como simulacro deste. E o "sorriso sorridente de São Paulo diante da chacina" (tristemente eternizado por Caetano e Gil em Haiti, de 1993) já não é mais só paulista. Já é um sorriso maranhense, carioca, baiano, mineiro... é um sorriso brasileiro.


     Mas, como lembrava Nietzsche, "quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti."


     A recente moda dos "justiceiros" (novamente, a mais inadequada das palavras), dos criminosos presos aos postes, das cabeças decepadas em presídios, do retorno àquela violência sistêmica apontada por Foucault em Vigiar e Punir, conta com o endosso (antes silencioso, agora cada vez mais alto) dessa "gente de bem", que encontra nos Bolsonaros, Rogers, Lobões, Sheherazades, Azevedos, Constantinos et alli todo um panteão de novos profetas, capazes de verbalizar seus medos e suas estranhezas diante de um mundo que eles não são mais capazes de compreender.


     Assim, não apenas retornamos à Idade Média, mas temos quem vibre com isso, e pior, quem nos diga que é assim que as coisas devem ser.


     Enquanto isso, os Alailtons da vida continuam a ser massacrados (qual foi mesmo o crime dele?) e a "gente de bem", que sonega impostos, que compra CD pirata, que falsifica carteira de estudante, que compra sua cannabis (de quem mesmo?), que suborna o policial quando cai na "blitz", aplaudindo e sorrindo, repete o velho bordão: bandido bom é bandido morto.

Comentários

  • arlete
    22/05/2014 13:10:35

    Estamos colhendo os resultados do abandono dos pais que delegaram aos professores a educação moral de seus filhos; de professores que não assumiram esse papel , nem tampouco comunicaram isso aos pais de seus alunos e, para coroar; a mudança no sistema de ensino público que passou a aprovar "automaticamente" os alunos da rede pública, ainda analfabetizados ,para elevar perante os órgãos internacionais a taxa dos alfabetizados, para competir no ranking mundial com países desenvolvidos e ganhar prestígio perante a cúpula de ÒRGÃOS internacionais às custas da ignorância de seu povo que agora está mais que evidenciada.

  • Thiago Oliveira
    15/05/2014 20:13:32

    Realmente cenas como as mencionadas no texto não passaram a ocorrer somente agora. Acredito que sempre (infelizmente) existiram atos como aqueles, e neste momento passaram a ser mais divulgadas. Mas, isso não quer dizer que não tenhamos que discutir o fato, que não tenhamos que tentar fazer algo sobre isso, que não tenhamos que tentar mudar esse quadro. Temos que lembrar que estamos no século XXI e podemos fazer algo melhor que essa barbárie. Belo texto.

  • Carevinni
    06/05/2014 07:46:54

    Não estou dizendo, na periferia sempre é pior. Hoje com redes sociais, celular com câmera, etc, ficamos sabendo das coisas que sempre existiram como isso. http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/05/advogado-divulga-fortes-imagens-do-espancamento-de-dona-de-casa.html Ali não é rico prendendo pobre, são pobres barbarizando outro pobre. Ausência de estado completa !

  • Carevinni
    24/04/2014 15:42:08

    Linchamentos sempre existiram, não é algo que surgiu agora. Se o autor acha que vivemos na idade média, saiba que isso é desde 1500. Não é um privilégio dos últimos tempos. Em periferia linchamentos sempre existiram e são bem piores, matam, queimam, etc. Julgamentos sumários mesmo, um absurdo, claro. Mas quando ocorre em regiões nobres, como em copacabana, existe uma verdadeira atração para aqueles que se julgam senhores da justiça social, que acabam por evocar a luta social, o capitalismo, etc. Tremenda imbecilidade. Claro que é errado qualquer tipo de linchamento, mas é a ausência do estado e reação do popular, sendo ela mais grave onde o estado é mais ausente (periferia). O que foi que a apresentadora do SBT disse se não isso? O erro dela é o tom do discurso, joga gasolina na fogueira, mas se for analisar o texto em si, ao meu ver, completamente coerente. Chamar de "panteão de gente do bem" autores que eu leio e concordo em boa parte do que escrevem me soa como uma crítica totalmente ridícula, pois não deve ler os autores citados. direita vs esquerda. Agora pergunto ao autor que é procurador do estado, se sofrer um assalto e pegar o ladrão. Qual é o problema em amarrar o mesmo e esperar a polícia chegar? Claro que irá dizer que é completamente normal, o erro são os populares lincharem, abusarem do direito da legitima defesa. Se concordar com o que digo acima, estará concordando com o panteão de gente do bem que foi ridicularizado no texto, pois nenhum deles vi acharem o que o texto leva a pensar, "bandido bom é bandido morto.

  • Isadora Dolabani
    23/04/2014 17:45:01

    Excelente matéria doutor! Parece que estamos na "era" de Talião mesmo.

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RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

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