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CONCURSOS Minha Trajetória nos Concursos

05/03/2012 por Alethea Assunção Santos

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

No último ano da faculdade, quando comecei a refletir, de fato, sobre meu futuro profissional, conclui que o serviço público seria a melhor opção. Apesar de me sentir, a princípio, atraída pela advocacia, sabia das dificuldades da profissão, em especial para um profissional jovem e sem recursos para instalar seu escritório. Portanto, ainda na faculdade, decidi que meu futuro seria no serviço público. Logo que conclui a graduação me inscrevi em um curso preparatório e passei a estudar.

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Passei a me preparar logo que conclui a graduação. A princípio, tentei vários métodos, mas decidi que precisava freqüentar um curso preparatório, pois assim me sentia mais motivada a estudar. Também gostava de fazer resumos. Apesar do tempo despendido, acredito que seja bastante útil para a fixação do conteúdo e para as revisões de última hora, úteis especialmente para provas orais.

Quanto tempo demorou para ser aprovada no primeiro concurso?

No início da minha preparação, até como forma de me motivar, prestava vários concursos, portanto, logo no primeiro ano, fui aprovada para o cargo de conciliadora do PROCON Estadual. Continuei meus estudos e, menos de um ano depois, fui aprovada para o cargo de analista judiciário da Justiça Federal.

A magistratura estadual sempre foi seu foco principal?

Após ingressar na Justiça Federal, como analista, passei a ser mais seletiva e direcionar meus estudos para as carreiras jurídicas que mais me interessavam, em especial a magistratura e o ministério público estadual.

A senhora sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

De forma alguma. Pelo contrário, minha família me incentivava muito e, quando eu me entristecia diante de algum resultado ruim, meus familiares me apoiavam, me dando forças para que eu não desistisse. Acredito que, se fosse o contrário, talvez eu não tivesse tido o equilíbrio e a tranquilidade imprescindíveis para minha aprovação.

Depois de aprovada, como foi sua rotina de juiza de Direito recém empossada?

Após o ingresso na magistratura e com a chegada à nova comarca, minha rotina era de muito trabalho, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Eu chegava a me isolar do mundo e muitas vezes sequer assistia aos noticiários. Parecia que nada mais no mundo me interessava além do meu trabalho. Acredito que isso aconteça com todos os novos magistrados, pois se trata de um período importante para que possamos conhecer os processos e os servidores com os quais trabalharemos e, o mais importante, para nos conhecermos e descobrir nossas habilidades e dificuldades. Com uma gama tão variada de atribuições, o Juiz de Direito deve se manter em constante aprendizado, o que nem sempre é fácil, diante da imensa demanda de trabalho.

Qual foi o momento mais engraçado e curioso da sua carreira até agora?

Às vezes fico surpresa com a extrema deferência que algumas pessoas - cada vez mais raras hoje em dia - demonstram em relação aos juízes, até com continência ou outro tipo de reverência. O difícil é saber como reagir nessas situações.

E o mais triste?

No âmbito pessoal, o fato de estar há mais de quatro anos numa comarca localizada a mais de mil quilômetros da capital, de difícil acesso, pois são mais de duzentos quilômetros de estrada não pavimentada, que na época de chuvas chega a ficar intransitável, e longe dos meus pais e dos meus amigos, é um fator de tristeza, sem dúvida, principalmente porque tenho um filho pequeno, de dois anos. Não foi fácil retornar, após a licença maternidade, principalmente por saber que o pediatra mais próximo, em caso de urgência, estaria a cerca de cinco horas de viagem.

Na vida profissional, é muito difícil não se deixar influenciar pelo sofrimento alheio. É claro que, com o tempo, aprendemos a esquecer, até para que possamos manter nosso equilíbrio emocional. Mas ainda hoje me entristeço diante de casos de violência contra crianças, principalmente quando ocorrem dentro do próprio lar, o local que lhes deveria ser o mais sagrado.

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Acredito que, a princípio, o interessado deve refletir bastante sobre o perfil exigido para a carreira escolhida. A maioria dos concursandos pensa apenas na aprovação, mas se esquece de encarar as dificuldades que a nova carreira trará, como a necessidade de mudança, muitas vezes para cidades pequenas e sem estrutura, a demora para as promoções e remoções e as concessões na vida social, a fim de salvaguardar a imparcialidade exigida para a boa atuação no cargo público.

O magistrado, o promotor de justiça e o delegado de polícia, em cidades pequenas, por exemplo, não pode se olvidar de seu papel social e da relevância dos cargos ocupados, vez que desses profissionais não se exige apenas o bom cumprimento de suas funções, mas também a participação na vida da comunidade, em atos públicos, prestando informações aos órgãos de comunicação. Portanto, todos esses fatores, bem como as peculiaridades de cada cargo, devem ser muito bem avaliados pelo concursando, para que, após sua aprovação, não se arrependa da escolha feita.

Superada essa fase, deve o concursando estabelecer quais são suas metas, definindo os cargos que almeja, para que possa direcionar bem seus estudos, definindo, o quanto antes, por exemplo, se pretende ingressar na área federal ou estadual, vez que os programas de tais concursos apresentam grande distinção entre si.

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Magistratura?

Sempre que se discute sobre a situação do Poder Judiciário no Brasil, em qualquer âmbito, a falta de juízes é uma unanimidade. Se o número de demandas propostas cresce em escala geométrica, o número de magistrados cresce em escala aritmética. A enorme demanda de trabalho, portanto, faz parte da realidade dos juízes brasileiros, em especial após a criação do CNJ, que passou a estabelecer metas para os julgamentos. Por isso, aquele que optar por essa carreira deve ter consciência de que terá muito trabalho, sempre. Ademais, o juiz precisa se manter sempre em constante atualização, para que realize com afinco seu trabalho.

A magistratura exige, ainda, muito mais do que conhecimento técnico e ética na vida profissional. O juiz costuma ser avaliado todo o tempo, até mesmo em sua vida particular, exigindo-se, sempre, elevado padrão de conduta moral. Nesse sentido, o artigo 16 do Código de Ética da Magistratura Nacional (Resolução-CNJ nº 60, de 19/09/2008) dispõe: "O magistrado deve comportar-se na vida privada de modo a dignificar a função, cônscio de que o exercício da atividade jurisdicional impõe restrições e exigências pessoais distintas das acometidas aos cidadãos em geral".

Portanto, aos interessados pela carreira, sugiro que reflitam sobre sua extrema responsabilidade e sobre a enorme cobrança exercida sobre os juízes, pelas partes, advogados, membros do Ministério Público, Tribunais, Corregedorias, CNJ e, principalmente, pela mídia e pela opinião pública.

A magistratura é, sem dúvida, um enorme desafio, mas a materialização da esperança daquele que teve seu direito assegurado vale todo o esforço.

Comentários

  • Regiane
    21/02/2014 19:15:25

    Dra. Aletheia, agradeço imensamente pelo seu depoimento. Eu já li várias histórias, mas a sua realmente me ajudou muito, pois, assim como a Dra., tenho a magistratura estadual como meu objetivo. Mas sempre me resta dúvida: se ao invés de atuar durante três anos na advocacia, e depois estudar, eu já deveria iniciar a jornada de estudos somente, vez que conclui a graduação ano passado. Pois a advocacia não me atrai. Ademais, pela descrição sobre a carreira da magistratura estadual, confesso que, o fato de se viver em lugares longínquos, ou com uma vida social restrita, e com muito trabalho, não me desmotivam, pelo contrário, sinto que ao alcançar a magistratura, realizarei um dos grandes objetivos da minha vida, que é uma das grandes missões em prol da sociedade! Talvez me falte a confiança que você teve: em dedicar-se integralmente aos estudos, logo após a graduação, e na capacidade intelectual para alcançar tal objetivo. Eu gostaria de saber, após quanto tempo, desde que se empenhou nos estudos, foi aprovada na magistratura estadual? Parabéns! Regiane.

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ALETHEA ASSUNÇÃO SANTOS

Alethea Assunção Santos

Juíza de Direito de Aripuanã/MT. Aprovada em 1o lugar no Concurso para Juiz de Direito substituto do TJ/MT

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