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MEDIDAS DE SEGURANÇA Minha pedra, minha vida"

04/11/2013 por Antonio José Eça

 

Alguém disse esta frase outro dia, comparando-a com o programa do Governo Federal sobre habitações populares e achei interessante para que sobre ela desenvolvessemos um pensamento. Já tivemos a oportunidade de discutir aqui, como uma ‘terceira opinião’ a recorrência do Governador do Estado em atitudes que já não tinham dado certo no passado, quando outro Governador tentou acabar com a ‘zona’ de prostituição. E comentamos que claro que a iniciativa de então não tinha dado certo e passados cerca de 60 anos, vem o Governo de agora tentando acabar com a ‘cracolândia’ por ‘decreto’, o que igualmente não deu certo.

 

E isto não deu certo, principalmente em face do fato de que o Sr. Governador esqueceu de ‘ouvir’ por exemplo, o que falou um usuário em ‘tira’ jornalística publicada em periódico da capital, quando o mesmo falou que ‘enquanto existir a droga, esse lugar vai existir’.

 

Pois é, Sr. Governador, ninguém lhe disse que enquanto existir o  crack, a cracolândia vai existir e de pouco ou de nada vai adiantar ‘inventar modas’ para com elas (as ‘modas’) tentar acabar com seu consumo ‘não acabável’(se me permitem o neologismo)!  

 

Ao que parece, existem vários profissionais de muito respeito e admiração que estão tentando ajudar no encaminhamento da questão; professores da assim chamada Unifesp (a velha e boa Escola Paulista de Medicina, que a ‘modernidade federal’ pretende descaracterizar como Escola ‘Paulista’ – se repararem, verão que quase nada mais pode ser genuinamente ‘Paulista’), da Faculdade de Medicina da USP (no campus de São Paulo e fora daqui), e outras mais.

 

E fala-se em ‘lares abrigados’ e coisas do gênero, se esquecendo da realidade do atendimento psiquiátrico como um todo. Sim, porque apareceram há alguns anos, os paladinos da ‘reforma psiquiátrica’, reforma que se preocupou, na verdade, em acabar com leitos de internações psiquiátricas, sob a mentira de que o paciente psiquiátrico deveria ser atendido na comunidade e que sua família deveria acolhe-lo e ampará-lo, deixando de interná-lo.....  o mote principal é que existiam hospitais verdadeiros pardieiros e para acabar com os pardieiros, acabaram com os hospitais.

 

Conto então que um dia apareceu um rei chamado Herodes, que tinha ouvido falar que teria nascido um menino que seria Rei; então esse rei Herodes mandou matar todos os meninos, para que com isto tivesse matado o futuro Rei! Adiantou? Não, não é? Pois é, com o fechamento dos hospitais deu-se a mesma coisa; só se deixou de ter no Brasil algo como 60.000 leitos psiquiátricos no total, não se fizeram os centros de Atendimento Psicossocial necessários e suficientes para atender a demanda, não se colocaram medicações psiquiátricas nos postos de saúde, não se desenvolveu o Serviço Social que fosse atrás dos pacientes que agora estariam no seio familiar, enfim, a assistência  psiquiátrica se era ruim, ficou quase  ..inexistente!

 

É claro que os ‘puristas da enganação’ vão querer me açoitar em praça pública, mas é só mostrar que estou errado, que os pacientes estão tendo todo o atendimento de que necessitam e eu me retrato! Mas ao contrario, vejam cruamente no que deu a tal ‘reforma psiquiátrica’.....

 

Mas afinal, por que toda essa fala sobre atendimentos de pacientes psiquiátricos em um artigo sobre o crack e sua ‘bolsa’? Porque o paciente psiquiátrico, seja psicótico ou usuário grave de drogas, tem a mesma necessidade de tratamento, com internações, lares abrigados, ambulatórios e tudo o mais!

 

E aí vem o Governo do Estado, com uma solução mirabolante!  Para fazer com que a família trate de seu usuário, institui (ou pretende instituir) uma ‘Bolsa Crack’, que seria um auxilio para a família do usuário para que ele se tratasse.....

 

É, pasmem, à família do usuário seria dada uma ajuda de custo de cerca de R$ 1500,00 para seu tratamento, com um ‘cartão’ que, por falta de nome melhor, chamo de ‘CCC’ (ou ‘Cartão de Crédito do Crack’).

 

Parece que há quem acredite que esta é uma formula que dará certo! Não se considera que um dos membros dessa família vai para o tratamento (ué, agora vai poder internar?), para que com isto se tenha acesso a esta verba, que, fatalmente será desviada para outros fins (ou alguém acredita que uma família necessitada vai investir PRIMEIRO em seu membro usuário de Crack?).

 

Alguém em sã consciência acredita mesmo que este dinheiro será usado somente para tratamento do usuário? Afinal, todos os ‘socorros’ monetários neste país acabam se tornando ‘moedas políticas’ e pior, passam a não poder mais ser encerrados, sob risco de badernas e rebeliões (que se lembrem das conseqüências do ‘boato’ sobre o fim do ‘bolsa família’); e, de ‘bolsa’ em ‘bolsa’, vamos consumindo um dinheiro que poderia ser mais bem utilizado, por exemplo, no combate ao fabrico, à venda, ao tráfico do tal do crack.

 

Se alguém falou que ‘enquanto existir a droga, esse lugar vai existir’, porque não gastar mais dinheiro, por exemplo, equipando as Polícias para que elas acabem com o crack, em uma ação esta sim, que poderia dar resultados melhores do que apenas de forma indireta, sustentar o uso e o consumo da substancia que se pretende combater?

É algo para se pensar; então pense nisto.  

Comentários

  • João B Andrade
    28/11/2013 17:16:47

    Idéias claras e bem elaboradas. Parabéns!

  • sonia
    19/11/2013 23:07:09

    Deveria ser lido no Jornal Nacional,publicado nos principais jornais deste nosso país orfão!Parabéns!

  • janaina
    14/11/2013 17:31:08

    Como sempre, ótimo artigo!

  • Carmen Lucia
    14/11/2013 09:04:21

    Compartilho com suas ideias, Saude mental é a "´pedra" no sapato do serviço publico,quando levarem a serio talvez possamos ter perspectivas melhores para o nosso pais.

  • Marcos
    12/11/2013 21:37:40

    Parabéns pelo artigo!

  • Marcos
    12/11/2013 21:36:49

    O governo do Estado criou o CRATOD que define os usuários que serão intenados por ordem judicial. Passados cerca de 60 dias de tratamento o paciente é "liberado" para voltar para a rua sem ter sido reinserido na família ou em algum grupo que continue fomentando a escolha pela mudança de vida. Não há coincidência com o período das eleições sem querer, querendo.....

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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