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JÚRI Júri e literatura

05/03/2014 por André Luiz Bogado Cunha

Por vezes existem semelhanças em coisas que aparentemente não guardam qualquer identidade entre si. Literatura é vista como uma arte, onde o autor demonstra seu talento na qualidade daquilo que escreve. É um exercício de criatividade, inovação e também de muita técnica. O júri é visto pela sociedade como um processo utilizado para julgar pessoas que cometem crimes dolosos contra a vida. O que pode haver de semelhança entre eles?  Este é o assunto da coluna de hoje.

 

Tanto a literatura como o júri, seja em que fase for, tem como instrumento a linguagem.  É através dela que o escritor procura mostrar seu talento. Se um pintor utiliza pinceis, tinta e tela para extravasar seus sentimentos, o autor de prosa ou poesia faz da palavra o seu instrumento de trabalho. Já houve época em que poetas comparavam a arte de escrever ao burilar de uma pedra bruta, donde se extrai uma majestosa estátua ou qualquer outra espécie de arte plástica.

 

A riqueza do talento de um escritor está exatamente na forma como ele consegue desenvolver a sua narrativa ou a conjunção dos seus versos.  O que era para ser apenas um meio para contar uma história ou mostrar sentimentos acaba se transformando, na verdade, na parte principal da obra. É ela que diferencia escritores talentosos de outros, apenas medianos.

 

No júri, mais do que em qualquer outra área do direito, a linguagem é fundamental. Na primeira fase, onde se procura convencer o juiz de direito, ela deve ser técnica; já no plenário, ela precisa ser simples, de fácil compreensão para os jurados. Em ambas, contudo, a linguagem serve de meio de convencimento de quem vai julgar. Se as palavras não forem bem articuladas jamais se atingirá o fim que se busca. Se na literatura o autor procura seduzir o leitor através da palavra, o orador no Tribunal do Júri deve dela se utilizar para que o jurado possa acatar sua tese, seja ela acusatória ou defensiva. Quanto mais exímio o profissional do direito, mais facilidade terá para argumentar, para travar uma espécie de diálogo com quem está apenas escutando. Na literatura também. O leitor, receptor passivo, também recebe as informações do autor e nada pode falar, nada pode contrapor. Em ambos, há um exercício de sedução – no bom sentido – através da palavra. 

 

Outra semelhança entre literatura e Júri diz respeito ao olhar. Sim, caro leitor, afinal, toda arte pode ser resumida como um olhar do artista sobre o mundo em que ele vive. O que o poeta ou escritor coloca em sua obra é exatamente uma visão que ele tem sobre a realidade. 

 

Um mesmo fato é visto pelos artistas de formas diferentes, sob óticas diferentes, pois a percepção depende muito de sua personalidade, de sua experiência e de seus conceitos. A qualidade de um grande escritor está exatamente na conjunção da utilização de uma linguagem bem elaborada com a visão sobre o mundo em que vive e que integra a sua obra.

 

No júri também ocorre o mesmo. Acusação e defesa partem do mesmo processo, das mesmas provas, dos mesmos fatos e cada um, ao seu modo, procura apresentar a sua tese, a sua visão deste conjunto. Por vezes há um antagonismo absoluto que é extraído de uma mesma realidade.  Se nos livros cabe ao leitor analisar aquele mundo apresentado pelo autor, no júri, é responsabilidade dos jurados julgar e acatar a versão que entendam ser mais adequada, mais acertada, mais justa.

 

Tanto a literatura como o júri são exercícios de percepção, de integração, de raciocínio, onde jurados e leitores devem ser respeitados, pois ambos são receptores de uma esmerada forma de arte, que tem como instrumento a linguagem.

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ANDRÉ LUIZ BOGADO CUNHA

André Luiz Bogado Cunha

Promotor de Justiça do 2º Tribunal do Júri da Cidade de São Paulo/SP.
andrebogado@yahoo.com.br

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