Página Inicial   >   Artigos

CABIDE MENTAL Dubai é aqui

24/07/2013 por René Zamlutti Jr.

 

Dubai entrou na moda nos últimos anos como destino de executivos (e engravatados em geral) sedentos de lucros e Meca (perdoem o trocadilho) da opulência dos mercados financeiros, polo de investimentos etc. A cidade de Dubai (que tem o mesmo nome do Emirado), construída no meio do nada e sem qualquer beleza natural, atrai também turistas pela sua modernidade, tecnologia de ponta e urbanismo progressista.

     Mas Dubai ainda é um Emirado Árabe, e como tal adota as leis muçulmanas e os valores do Corão. O mundo tende a ignorar esse contraste e a olhar, fascinado, para o lado moderno e próspero do lugar.
     Até o momento em que uma estrangeira é estuprada.
     A essa altura todo mundo já conhece a história: em março, a norueguesa Marte Deborah Dalelv, de 24 anos, que estava em viagem de negócios pelo país, procurou a polícia de Dubai e denunciou um estupro. Segundo a denúncia, ela teria ido a uma festa com um colega de trabalho, ambos beberam e, quando voltaram ao hotel, o colega (seu chefe, por sinal) a teria violentado.
     A resposta dada a Marte pela polícia de Dubai - diga-se de passagem, em plena consonância com as leis daquele país (ah, as loucuras do fanatismo religioso!) - foi confiscar seu passaporte e trancafiá-la numa cela por quatro dias sem permissão sequer para usar o telefone. No final da semana passada, Marte foi condenada a 16 meses de reclusão por ingerir bebida alcoólica, fazer sexo fora do casamento e atentar contra a decência (a UOL divulgou a notícia no dia 19).
     Que ninguém acuse Dubai de misoginia. Afinal, o chefe de Marte também foi condenado a 13 meses de reclusão, por consumo de álcool e relações sexuais consentidas...
     A repercussão mundial foi tão negativa, e tão intensa, que o governo de Dubai decidiu perdoar Marte - e, é claro, perdoar também seu agressor.
     Todo esse horror parece muito distante do Brasil. Afinal, o fato ocorreu em um país árabe, imerso na cultura muçulmana (que é assumidamente machista e desigual no trato entre homens e mulheres) e que, no que toca aos direitos humanos, ainda não saiu do Paleolítico.
     Parece. Mas as aparências enganam.
     Quando a notícia da libertação de Marte foi divulgada da internet, os comentários dos internautas - sempre um bom termômetro de parcela da opinião popular - deixaram bem claro que temos muito mais  de Dubai - em seu aspecto medieval, não em sua faceta moderna - do que imaginamos.
     Os links estão no texto, o leitor pode dar uma conferida. Destaco três, dentre muitos, muitíssimos, no mesmo sentido:
"Mas um pouco de decência também é bom, né?"

"caiu na gandaia tomou todas disse foi estuprada e foi presa que loucura"

"Se vai transar, leve um gravador primeiro e pergunte para a parceira, posso transar com você? Previna-se porque depois ela pode dizer que foi estuprada e você vai preso. Em Dubai, transou e não tem compromisso assinado dançou! Eta sociedade esquisita! Não vá a Dubai principalmente se sua companheira não for casada."
     Há comentários ainda piores, mas a linha-mestra, que se repete ad nauseam (literalmente) é o velho argumento: a vítima provocou. Afinal, ela estava em uma festa, bebeu com o colega, nada mais natural do que ela querer fazer sexo com ele, mesmo que, digamos, não demonstre isso claramente. Simples, não? Não.
     O que surpreende nos comentários às notícias é a convicção quase unânime de que o sexo foi consensual, e que Marte, sabe-se lá por qual razão, decidiu acusar o chefe de estupro. Convicção, aliás, também do Judiciário de Dubai, já que o chefe de Marte foi condenado por ter relações sexuais consentidas.
     Outro argumento frequente nos comentários é o de que Marte estava em outro país, outra cultura, logo, deveria respeitar os costumes locais. Nada mais é do que uma variante do "foi ela que provocou". E por trás da aparente suavidade do "uma coisa não justifica a outra, maaaassss...." se revela cristalina aquela certeza íntima de que, ao contrário do que a boca diz, a cabeça acredita que a conduta de Marte justifica, sim, o que ela passou depois.
     Que fique claro: eu não estava lá, não posso afirmar com certeza que Marte foi estuprada. Por outro lado, os internautas que se apressaram em condená-la (e que têm uma certeza quase religiosa - novamente, perdoem o trocadilho - de que ela consentiu) também não estavam lá, e sabem tanto - ou tão pouco - sobre o que de fato aconteceu quanto eu. Escolher entre acreditar na versão da suposta vítima ou no suposto agressor, se as duas versões forem igualmente prováveis (não me parece o caso, por sinal), não esclarece o ocorrido, mas informa muito sobre quem faz a escolha.
     Bom seria se Dubai (no que tem de pior) fosse um país distante. Mas no Brasil do século XXI, Dubai não está distante. Nem mesmo está perto. Dubai é aqui.

Comentários

  • Martha
    10/12/2013 13:28:23

    Excelente reflexão !

  • julio chaves
    19/09/2013 11:33:59

    Pelo amor de Deus!!! Quanta ignorância!!!! Me recuso a discutir!!!

  • Ramiro muiuca
    06/08/2013 10:43:26

    mesmo se os dois tivessem de acordo quanto a relaçao sexual,mas se o costume daquele cidade funciona assim,automaticamente mereceram asançao que lhes foi aplicada

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

RENÉ ZAMLUTTI JR.

René Zamlutti Jr.

 

Procurador do Estado de São Paulo, especialista, mestre e doutor em Direito Constitucional pela PUC/SP e professor da USJT e da EBRADI - Escola Brasileira de Direito. 

Autor do Blog: CABIDE MENTAL

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br