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MEDIDA DE SEGURANÇA A reforma" psiquiátrica e o hospital de custódia e tratamento

02/06/2014 por Antonio José Eça

Há algum tempo atrás, surgiu um movimento que se dizia “redentor”, e que queria (como, aliás, o conseguiu), fechar os manicômios, esta sandice se chamou luta anti manicomial, tomou forma nesta terra que às vezes fica pouco pensante, e com isto, sumiram 85.000 leitos psiquiátricos no país.

 

Dizia esta maravilhosa solução que os hospitais eram apenas depósitos de pacientes largados e então que se fechassem os mesmos e que se fizessem CAPS – Centros de Atendimento Psico Social, e oficinas abrigadas, e hospitais dia e tudo o mais, com o intuito de se suprir a falta de atendimento psiquiátrico que viam no Estado.

 

Não diríamos que existiam hospitais que eram menos do que pocilgas; não diríamos que havia hospitais onde o mais importante era cobrarem diárias para enriquecimento dos donos; mas daí a fecharem os hospitais, vai uma distância muito grande, principalmente em face do fato de que, (e brinco muito com isto):

–  se a mulher de um alguém que tem poder o traiu com o padeiro, não adianta fechar todas as padarias por isto; 

–  um dia existiu um rei, Herodes, que ouviu dizer que havia nascido um menino que iria ser Rei (Jesus Cristo); então, este rei Herodes mandou matar todos os meninos que estivessem nascendo para que o tal menino fosse morto em meio a todos e não crescesse e tomasse o seu lugar.

 

Pergunta-se: com estas duas atitudes dos exemplos, adiantou a providência que tomaram?

 

Claro que não! Jesus vingou e deixou um porvir muito maior do que as pretensões de Herodes; as mulheres (do exemplo) continuam traindo agora não mais com padeiros, mas com outros tipos de indivíduos.

 

O que pretendo falar é que fechar os hospitais deficitários em termos de assistência não resolveu o problema; e não resolveu apenas pelo fato de que temos, em verdade, uma carência de métodos assistenciais, (neste caso, em psiquiatria) e que não iria ser com leis e teorias que iria ser suprida tal necessidade; se por acaso tínhamos um hospital que estava tratando os pacientes como porcos, então, que se prendesse o dono ou o diretor do hospital, que se tomasse o hospital dele e que se transformasse aquela pocilga em... hospital!

 

Se resolvermos o problema de não existir mais um “hospital pocilga”, criamos outro, pois agora nem pocilga e nem nada para cuidar dos pacientes; sim, porque a ideia inicial de se fazerem serviços como CAPS e tudo o mais, esbarra no fato de que não existem nem os CAPS prometidos, não existem materiais (para colocar dentro dos CAPS – que, aliás, não existem), não existem profissionais de saúde mental para trabalhar nós mesmos, e por aí afora.

 

E “alguéns” já devem estar levantando cadafalsos para me “enforcar em praça pública” de estar dizendo isto; devem estar se preparando para falar que eu sou antiquado, reacionário e todas essas “belezas” que fazem parte da cartilha de quem não comunga com seus pensamentos autoritários e absolutistas.

 

Sim, absolutista porque fechar hospitais não pode ser visto como uma solução para a Saúde; apenas serviços alternativos de atendimento ambulatorial não preenchem o vazio assistencial que se forma com o fechamento de leitos hospitalares; leitos servem para intervenções agudas e necessárias com certeza, para que se tratem adequadamente os pacientes doentes mentais! Fazem parte de um grande todo do qual participam também os centros de atendimentos abertos, como oficinas abrigadas, os próprios CAPS e todos os estabelecimentos congêneres; mas, em conjunto, os hospitais e os complementares; afinal, primeiro interno para um tratamento mais intensivo e depois mando para um ambulatório para o seguimento do mesmo tratamento.

 

Se pensamos realmente que hospitais não fazem falta, porque não fechamos os hospitais gerais e passamos a fazer intervenções cirúrgicas em regime de ambulatório? É, senhores, esta seria o equivalente clinico à esta excrescência psiquiátrica.

 

Só se então estivesse (como sempre existe) no ar uma intenção mais grandiosa por parte de alguns detentores do poder: a grande intenção de fazer minguar e morrer a Psiquiatria como especialidade médica; há quem pretenda não depender dos psiquiatras para lidar com saúde mental, da mesma maneira absurda que a Presidente (presidenta?) deste país está colocando a culpa de todas as mazelas (que ela e seu partido) deixaram acontecer com a Saúde no Brasil nos médicos, precisando trazer as “maravilhas” que tem trazido de fora para atender por aqui; ora, simples pensar, se a culpa da “mal-saúde” no país é dos médicos, a culpa da “mal-saúde-mental” é dos psiquiatras.

 

Cremos que, com toda certeza, quem pretende acabar com hospitais psiquiátricos e com a psiquiatria, não possui em sua família um doente mental real; só quem tem o costume (profissional ou não) de conviver com eles é que sabe que é necessária a existência de um local para contê-lo quando de uma crise real e séria; mas não, os “palpiteiros” de plantão não conhecem realmente psicopatologia.

 

E porque isto está sendo discutido aqui? Porque já se ouve ao longe uma pretensa grita para que se dirijam estes “canhões – paladino”’ para os “hospitais de custodia e tratamento’”. aí então será bem interessante o que se vai ver: não mais apenas doentes mentais soltos pelas ruas, como “ligeiras” e pedintes, mas doentes mentais criminosos a cometer toda sorte de crimes e descalabros próprios de quem não possui o necessário discernimento para o bom convívio social. Mais tarde voltaremos ao assunto

 

E, como se diz, quem viver, verá.

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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