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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA 1º de maio : Vamos falar de assédio?

 

#ALFORRIAPARAMULHERES

 

Lata d'água na cabeça

Lá vai Maria

Lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria

 

            O 1º de Maio foi instituído oficialmente em Paris no início de 1900 para relembrar a luta por melhores condições de trabalho.

            Muito se lutou, nas ruas, nas leis e nas causas judiciais para se alcançar condições dignas de trabalho. O medo de perder o emprego e a dependência do salário tornavam o trabalhador vulnerável. Com as conquistas, estabeleceu-se a igualdade material, entre os desiguais “patrão” e “empregado”.

            Mas um ponto parece que foi esquecido. Há pessoas no ambiente de trabalho que permanecem vulneráveis.

            Essa vulnerabilidade não está estampada, não é dita e não é fácil de ser percebida, pois atinge brutalmente a pessoa trabalhadora em aspectos mais íntimos – sua autoestima, sua determinação e sua autonomia. 

            Essas pessoas são as que sofrem o ASSÉDIO SEXUAL.

E nunca houve GREVE por este motivo. Nem movimentação dos sindicatos.

O assédio sexual atinge ao menos 50% dos trabalhadores, em sua grande maioria MULHERES.  Há dupla opressão: como mulheres, devem se sujeitar aos gracejos e avanços, vistos como  “naturais”; como funcionárias, devem se submeter aos chefes para manter o emprego e muitas vezes sustentar os filhos.

            Os relatos são sempre iguais. Os assediadores ocupam cargos superiores ou proeminentes e ganham espaço aos poucos, com gracejos e tocando os corpos dessas mulheres e adolescentes. A seguir, alguns relatos:

                        - Anônima, assediada pelo Diretor Financeiro:

Eu dizia que iria denunciá-lo, mas quanto mais eu falava, mais ele pegava em mim. Certo dia, eu estava na copa do escritório, de costas. Ele me encoxou e me deu um beijo na bochecha. Eu fiquei totalmente sem reação. Só consegui virar de frente para ele parar e sentar no meu lugar. Decidi não falar para ninguém, pois uma advogada  me orientou que,  em um processo de assédio, eu precisaria de provas ou testemunhas – e eu não tinha nem um, nem outro”

 

            - F.B, estagiária, assediada por advogado

“um dia ele colocou a mão no meu seio, apertou e depois colocou a mão no outro. Eu fiquei gelada, muda, não sabia o que fazer. Foi um tapa na cara...Depois disso, passei a falar apenas o essencial, não peguei mais carona e nem contei para ninguém o que aconteceu”

 

            - C.B., assediada pelo chefe (amigo de seu pai)

 “tinha 16 anos quando trabalhei no gabinete de um vereador com digitadora. Sempre que estava sozinha com o chefe de gabinete, ele vinha alisar o meu ombro, passar a mão no cabelo e ficar falando o quanto eu era bonita, que eu tinha mudado muito desde quando ele me conheceu – ele era conhecido do meu pai, então, me viu quando eu era criança....comecei a ficar com um nojo tão grande que não conseguia mais disfarçar...Só fui contar isso para meu pai quando saí de lá, com 18 anos” .

 

            - B.B. , assediada pelo maitre de um restaurante

“trabalhei como hostess em um restaurante. O maitre começou a fazer convites para sairmos para beber e eu, sempre educada, dava um jeito de recusar sem constrangê-lo. Até que um dia ele pediu para mim uma foto da minha ´vagina´. Depois daquele dia, me afastei e evitei todo tipo de contato. Ele começou a ser agressivo, colocar defeitos no meu trabalho e alterar escalas para que eu não tirasse folga

 (Depoimentos extraídos da matéria: Assédio Sexual no Trabalho, Finanças Femininas:UOL, Acesso:24.04.2017).

 

            Tal como nos depoimentos, o assediador prefere mulheres sobre as quais exerce poder e controle. Não é uma relação de afeto. Só conquista. A recusa raramente é aceita e, nestes casos, a abordagem se torna mais insistente, invasiva e a vítima pode sofrer retaliação.

            Pesquisa realizada com quase 5.000 pessoas em todo o país pelo site VAGAS.COM revelou que o assédio sexual atinge 79,9% mulheres e, dentre as pessoas que noticiaram o fato, em 74,6% dos casos o agressor continuou na empresa. Por isso, a regra é o silêncio:

            ASSÉDIO Moral/Sexual

                         * 84% dos agressores são chefes/superiores

                         * 79,9% das vítimas de assédio sexual são mulheres

 * 87,5% das vítimas não denunciaram o assédio

 

MOTIVOS do SILÊNCIO:

          * 39,4% medo de perder o emprego

          * 31,6 % receio de represália

          * 11% por vergonha

          * 8,2% medo de ser considerado culpado/a

          * 3,9% por  sentimento de culpa

 

            Caso o assédio seja transitório, os problemas de saúde que normalmente surgem como stress, fadiga, vertigens, podem desaparecer. Contudo,  se o assédio for persistente, surgem danos mais sérios. Estes são os danos à saúde descritos por Marie-France Hirigoyen, em sua obra El Acoso Moral em el Trabajo, que inclusive menciona a possibilidade de suicídio:

            assédio

CONSeQUÊNCIAS

 

stress e ansiedade

Cansaço, fadiga, nervosismo, problemas digestivos. Podem desaparecer se a situação se resolve mais rapidamente.

transtornos psicossomáticos

52% das pessoas têm esses transtornos e muitas se automedicam.

Podem ser seguidos de stress pós-traumático.

São as alterações repentinas de peso (20, 30 kg), doenças estomacais com úlceras, colites, problemas endocrinais (tireoides, menstruais), alterações de pressão), vertigens e doenças de pele.

DEPRESSÃO

 

 

 

 

 

Uma das consequências mais graves é a depressão, que, nos casos mais severos, pode levar ao suicídio.

 65% severa, com consulta a psiquiatra em 52% dos casos

24% estado depressivo leve

7% estado depressivo moderado.

 

            Assédio não é cantada, não tem graça e não é brincadeira.

 

            A vítima não tem condições de lutar, sozinha, contra a opressão do assediador e a postura da empresa é fundamental para evitar que padrões de desrespeito e a abuso se perpetuem. Mais do que lutar contra corrupção, compliance deve ser também proteção de pessoas.

 

            Em uma Carta de Alforria de 1887 de escravo/a,  constava a justificativa “para não ter o desgosto de viver em cativeiro”, como identificou a pesquisadora Maria de Fatima Novaes Pires.

            Após mais de um século, qual de nós, mulheres, não gostaria de estar liberta da jornada tripla – pois Maria se cansa - e do cativeiro de assedio/cantadas em nossos locais de trabalho? É tempo de ALFORRIA PARA AS MULHERES!.

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VALÉRIA DIEZ SCARANCE FERNANDES

Valéria Diez Scarance Fernandes

Promotora de Justiça. Professora de Processo Penal – PUC/SP. Doutora em Direito Processual Penal. 

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