Roger de Carvalho Mange foi, durante muitos anos, um dos
mais famosos advogados falencistas de São Paulo. Profissional brilhante, era
respeitadíssimo no meio forense por atributos dificilmente encontráveis em um
mesmo causídico: grande cultura jurídica, total dedicação às causas que lhe
eram confiadas, muita sensibilidade, grande poder de argumentação, reputação
ilibada e enorme simpatia.
Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, pois fomos
vizinhos em Campos do Jordão. Ele gostava de reunir os filhos (entre eles
Renato, que, como o pai, foi Presidente da AASP, e o saudoso Sérgio, que
seguiram com sucesso sua especialidade) e amigos em volta da mesa de snooker, sempre na companhia de bons
vinhos e queijos.

Era um gentleman, tanto na vida profissional como social e
familiar, elegante nas palavras e nos gestos, alegre, amável e divertido.
José Roberto Fanganiello Melhem, meu colega de Faculdade
e ex-Presidente da CONDENPHAAT, que também deixou saudades, contou-me certa vez
um episódio que emoldura o caráter do Dr. Roger.
Adversários em uma importante causa, Melhem, durante o
decurso de um prazo processual, teve o pai gravemente enfermo e hospitalizado,
não conseguindo apresentar a tempo determinado recurso. O prazo era fatal e o
processo parecia irremediavelmente perdido.
Desesperado com o ocorrido, Melhem resolveu procurar o
Dr. Roger em seu escritório. Explicou-lhe o que sucedera e o mestre disse-lhe
que concordaria com um pedido de devolução do prazo, mas que antes precisaria
falar com seu constituinte.
Na frente de Melhem, telefonou ao cliente narrando o que
acontecera e manifestando sua intenção de concordar com a devolução do prazo.
Ante a reticência do cliente, disse a este que, caso não concordasse, iria
renunciar ao mandato. Não querendo perder um advogado desse quilate, o cliente
acabou concordando.
Ali mesmo, no escritório do mestre, Melhem fez a petição
pedindo a restituição do prazo e o Dr. Roger apôs o seu "de acordo". Saindo de
lá, Melhem foi imediatamente despachar a petição e o juiz devolveu-lhe o tão
almejado prazo.
Como afirmou Oscar Quiroga, a moral muda com o tempo, a ética
permanece. E eu acrescentaria: tão importante quanto a ética, é a solidariedade
humana. Mestre Roger, que influenciou várias gerações de advogados, era, sem dúvida,
um gentleman ético
e solidário.