Carta Forense - Em que momento decidiu se enveredar pelos
concursos públicos?
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara - Durante a faculdade fiz
diversos estágios: Escritórios de Advocacia, Ministério Público Federal,
Tribunal Regional Federal e do Trabalho. Estas experiências durante o curso de Direito
me ajudou muito a escolher o caminho a seguir na minha vida profissional. Eu me
graduei em 1995 na Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP e, nesta época,
não se ouvia falar na Advocacia-Geral da União, já que havia sido recentemente
instalada em 1993. Mas tinha um sonho: queria ser advogado. Eu via a iniciativa
privada contratando as melhores bancas de advocacia para lhe representar. Como
minha família não tinha nenhuma tradição na área jurídica e sabia que a
advocacia liberal seria um longo caminho a percorrer, decidi enveredar pelos
concursos públicos tão logo me formei. A Advocacia Pública foi uma opção que compatibilizou
meu sonho à oportunidade de rapidamente alcançar um patamar remuneratório
desejado.
CF - Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?
AGVA - Logo que me formei, comecei a investir nos concursos públicos.
Mas sabia que deveria focar numa área específica para obter êxito mais
rapidamente. Deste modo, privilegiei os concursos da advocacia pública. Eu
tinha pouco tempo para estudar, pois trabalhava o dia todo. Então, precisei
otimizar meu tempo e ser bem objetivo. Minha metodologia era bem simples, pois
sempre iniciava pelas matérias que tinha mais afinidade. Lia o assunto do ponto
do programa, depois fazia exercícios relacionados aquele ponto em diversas
provas de concursos anteriores, utilizando-me da jurisprudência atualizada dos
tribunais e recorrendo aos manuais dos juristas mais consagrados para tirar as
dúvidas. Pouco a pouco ia cumprindo todos os pontos do programa.
CF - Que medidas o senhor tomava para enfrentar as matérias
que tinha mais dificuldade?
AGVA -Eu sempre utilizei a metodologia baseada neste tripé:
leitura do assunto do ponto + muitos exercícios relacionados ao ponto em
diversas provas + jurisprudência e manuais. Sempre procurava em todas as provas
que possuía algum exercício sobre o ponto que eu estava estudando. Naturalmente
reservava os dias em que estava mais disposto e animado para estudar os
assuntos mais espinhosos.
CF - Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro
concurso?
AGVA - Eu me formei em dezembro de 1995 e fui aprovado no meu
primeiro concurso em junho de 1998. Ou seja, levei dois anos e meio. Não passei
de primeira, pois fiz vários concursos. No início não passava nem na primeira
fase, depois comecei a passar na primeira e não passava nas fases seguintes. O
primeiro concurso que obtive aprovação em todas as fases foi o de Procurador do
Banco Central do Brasil em 1998, cargo que ocupei durante dois anos e três
meses até tomar posse no cargo de Advogado da União, em outubro de 2000.
CF - A Advocacia da União sempre foi seu foco principal?
AGVA - A Advocacia de Estado sempre foi meu foco principal. No
começo pensei muito em ser Procurador do Estado, pois teria a oportunidade de
desenvolver a advocacia pública e privada ao mesmo tempo, já que a maioria dos
Procuradores do Estado pode exercer advocacia liberal. Contudo, foi na
Advocacia-Geral da União que tive a oportunidade de conhecer as experiências
mais interessantes de toda a minha vida profissional. Muito jovem, comecei a conhecer
os assuntos de relevante interesse do Estado Brasileiro já que estava
trabalhando numa organização estratégica para o país. As atribuições da
carreira de Advogado da União são muito relevantes, pois prestamos consultoria
aos Ministérios na formulação das políticas públicas do Governo, defendemos o País
em contenciosos internacionais como a Corte Interamericana de Direitos Humanos
e a OMC, defendemos as autoridades federais em processo judiciais, assessoramos
os órgãos federais e representamos a União em juízo. Não resta dúvida que a
carreira que escolhi é muito importante para o País.
CF - O senhor sofreu com a cobrança de familiares e amigos em
relação à aprovação?
AGVA - A grande cobrança da aprovação sempre veio de mim mesmo.
Eu sempre soube que o meu maior concorrente era eu mesmo. Sabia que a minha
aprovação só dependia do meu próprio esforço. Se conseguisse reunir
auto-estima, conhecimento e estabilidade emocional nada nem ninguém poderia
impedir minha aprovação no concurso que escolhi. Mas a coisa mais importante é
a persistência. Quem não desiste nunca, certamente um dia irá passar.
CF - Depois de aprovado, como foi sua rotina de AGU recém
empossado?
AGVA - Quando tomei posse na AGU, fiquei lotado na Procuradoria
da União no Distrito Federal, responsável pela representação judicial da União
na Justiça Federal de Primeira Instância em Brasília. Como eu já era Procurador
do Banco Central do Brasil quando tomei posse no cargo de Advogado da União,
conhecia bem a atividade de contencioso. No começo a AGU era um sem número de
processos e pouquíssima estrutura. Saí de uma estrutura de primeiro mundo que é
o Banco Central para uma organização sem qualquer estrutura como era a AGU em
2000. Alguns até me chamaram de louco porque estava deixando o BC para ir para
a AGU. Além de mais uma experiência profisisonal, naquela época eu já tinha
certeza que a AGU se tornaria uma das maiores organizações do Estado
Brasileiro. Tive também a oportunidade de atuar perante o Tribunal Regional
Federal da Quinta Região em Recife, na Procuradoria-Regional da União em
Recife, e perante o Superior Tribunal de Justiça quando trabalhei na
Procuradoria-Geral da União.
CF - Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar
numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?
AGVA - O primeiro passo é escolher qual a carreira pública se
identifica mais. É como o vestibular, não adianta prestar concurso para várias áreas
ou carreiras e atirar para todos os lados. É preciso escolher e ter foco.
Depois realizar um planejamento de estudo cuidadoso e ter certeza que será
preciso entre 2 e 3 anos para alcançar o sucesso. Poucos são os que conseguem
aprovação no concurso escolhido antes desse tempo.
CF - O que deve esperar o concursando na hora de optar por
esta carreira?
AGVA - Como já referi, a carreira de Advogado da União tem
atribuições muito relevantes para o Estado Brasileiro. O que gostaria de
enfatizar é que poucas carreiras jurídicas possibilitam a atuação desde o início
nos órgãos de cúpula da instituição e isso, na minha opinião, é um grande atrativo
para quem está ingressando na carreira. Entrando na AGU, o Advogado da União
pode atuar diretamente junto ao STF, STJ e aos Ministérios.
CF - Qual foi o momento mais feliz e triste da sua carreira até
o presente momento?
AGVA - O momento mais feliz da minha carreira foi quando soube
que tinha obtido minha primeira aprovação em um concurso público que foi o de
Procurador do Banco Central. Foi um divisor de águas para mim. Realmente até
você passar no primeiro concurso é uma estrada espinhosa. Acho que o segredo do
sucesso profissional é você privilegiar as soluções e não nos problemas. Os
momentos tristes foram as batalhas perdidas, mas isso faz parte da vida. O
importante não é quantas vezes se perde um objetivo, mas quantas vezes você
levanta a cabeça e continua a caminhada. Eu sempre procurei privilegiar a vida
pelo lado positivo, aprender com meus erros e continuar em frente sempre
focando nas soluções de valor.