Ao dar continuidade ao artigo anterior (Família - Parte
I) intento chamar a atenção para um drama cada vez mais comum que não é normal:
desamor, culpa, abandono, exploração e solidão na esfera doméstica.
Com raríssimas exceções, abordar questões familiares é
remexer em "caixas pretas" que, independente do porte, por medo todos preferem
manter devidamente enterradas, bem longe dos próprios olhos e, sobretudo dos
alheios.
Num passado não muito distante (cerca de 2.500 anos), os
tragediógrafos gregos revelaram, com irrepetível maestria, muitas das potências
(dýnamis) que
subjazem aos atemporais dramas familiares. Há pouco mais de um século, cabe aos
profissionais das áreas psíquicas (psicólogos, psicanalistas, psicoterapeutas,
psiquiatras e afins) a tarefa de adentrar a esses secretos labirintos.
Nesse sentido, eles se assemelham ao deus grego Hermes
(Mercúrio na mitologia romana) que, regendo a velocidade, a mente e a fala, é o
deus da comunicação.
Vale informar que Hermes, muito mais que "assistente" do
soberano do Olimpo, Zeus, muitas vezes inadvertidamente tido como mero "moleque
de recados", é a única divindade a ter livre acesso às profundezas da psique
(alma) e ao misterioso e temido reino do Hades (mundo dos mortos).

Não se perscruta caixas pretas impunemente! Como Hermes, muitos
advogados, promotores, jornalistas, investigadores, médicos e psicanalistas,
por exemplo, chegam com as novidades - honrosa e maldita função, pois, "ossos
do ofício", as notícias nem sempre são boas e, se a verdade dói, a cabeça do
mensageiro é a primeiríssima a rolar. Grande injustiça!
Parafraseando o notável escritor Guimarães Rosa - Falar é perigoso. Foi por flagrar e
revelar o que não devia que Tirésias ficou cego (veja em meu Blog: www.lucienefelix.blogspot.com ) e, nesse sentido, tivemos também a pobre
Cassandra a quem, agraciada com o dom da profecia pelo deus Apolo, ninguém dava
crédito. Foi incansavelmente e em vão que tentou impedir que os troianos
aceitassem o famoso presente dos gregos.
Mais recentemente (em termos históricos), Freud
escandalizou a sociedade vienense ao, entre outras descobertas, apontar a
latente sexualidade infantil e, até hoje, a fim de evitar desconforto, convém
se abster de xeretar os "esqueletos nos armários". Mas nem sempre o que está
quieto permanece quieto e infelizmente (ou felizmente) a irrupção do nefasto torna
a investigação obrigatória e o conteúdo das caixas pretas vem à luz.
As tragédias gregas, shakespearianas e as grandes obras
literárias como "Os irmãos Karamazov" de Dostoievski, nos revelam muito do "dark
side" dessas
constelações: hediondos crimes de matricídio, parricídio e infanticídio, por
exemplo, reais ou simbólicos são (não matem o mensageiro!) atualíssimos e (não
se iludam com os sorrisos nos porta-retratos) se fazem presentes em insuspeitáveis
lares "felizes".
Por um lado, não são raros os casos em que as crianças
veem ao mundo com o prévio fardo de alicerçar uniões já fracassadas ou de
satisfazer o desejo de vaidade de seus progenitores. Há ainda as concepções por
acaso e as
absolutamente indesejadas (incesto, estupro, etc.).
Noutra ponta, também não são poucos os idosos vitimados
por seus próprios filhos (vide o filme "A casa de Alice", do diretor Chico
Teixeira). Usurpados em suas parcas economias, contraem empréstimos consignados
que nunca são pagos, cedem moradia, realizam diariamente extenuantes afazeres
domésticos e até tomam para si a árdua tarefa de criar os netos dedicando-se
integralmente ao bem estar dos filhos, filhas, genros e noras.
Mesmo quando a situação econômica apresenta-se confortável,
outro silencioso e velado matricídio/parricídio é perpetrado em doses "hipócrito-homeopáticas": ameaçados pelo abandono à
espreita, vulneráveis, acalentam datas, anseiam pelo telefonema, um e-mail,
algum convite. Esperançosos, fitam a porta, aflitos pela condescendente visita
dominical.
Idosos têm sido explorados e/ou desprezados pela prole.
Erro, pecado ou vício, condenados sem direito a julgamento, imputa-se-lhes uma
pena que não prescreve.
Se, otimistas, imaginarmos a expectativa de vida média do
ser humano em 90 anos, por exemplo, observaremos que, aurora da vida, a infância
é período muito breve, mas de inocente frescor e vivacidade singular. Ah, a infância...
caixinha dourada que aconchega selecionadíssimas pedrinhas preciosas; por todo
o resto de nossas vidas regressaremos a ela. Mnemósyne, a memória, é seletivamente
benfazeja, mesmo nos inícios de vida mais difíceis.
Passada a infância e a juventude (esta última com tudo
o que lhe é perdoável, pois como dizem "a adolescência é uma doença que o próprio
tempo se encarrega de curar"), as décadas de plenitude da vida, o grande "miolo" da vida (30/40/50/60 anos) também
decorrem num estalo. Mas geres, a velhice maldita, maior surpresa que quem viver
testemunhará, dura "para sempre", até o fim.
Afora a que herdamos, será no mencionado "miolo da vida"
que fomentaremos caixinhas a legar. Faremos nossas opções, tomaremos decisões,
escolheremos os tons que pincelarão nossa velhice.
Nem na aurora (crianças são verdadeiramente inocentes
e jovens são inexperientes), tampouco no crepúsculo quando, perseguidos pela culpa,
sentimos a alma aprisionada e tudo o que mais buscamos é perdão e redenção.
Amor, carinho e afeto não são incondicionais: não é
porque gerou que é Mãe, nem somente porque semeou que é Pai. Sabemos que,
levianos, irresponsáveis e "gente ruim" também envelhecem. E nascem!
Quando é nosso o momento de agir, narciso reina,
sentimo-nos ilimitados, desejamos "poder" tudo. Poder? E o que "não pode" hoje,
no mundo? Convém indagar é se deve.
Diz a piada que "fazer análise após os cinqüenta anos é
como querer mudar a rota de um avião que já pousou". Discordo. Só pousamos,
quando o caixão baixa ao túmulo. E fica a "caixa preta"... Nunca é tarde para buscar
ajuda profissional para lidar com a angústia de caixas pretas herdadas ou confeccionadas e
perseguir tons mais gloriosos (menos culpados) para colorir nosso crepúsculo.